sábado, 29 de janeiro de 2011

EGITO

Bom ver o Egito de volta na mídia. Que seja ao preço da violência! Afinal a mídia gosta só dela, quase só dela. O Egito de volta. Eu amo o Egito. Saber do Egito. Hoje. Tenho um filho filho de egípcio. Adoro comidas egipcias. Meu primeiro amor virtual foi um egipcio (Omar Shariff), adoro os escritores egípcios, Nagib Mahfouz, Albert Cossery. É desse que eu queria falar aqui. Albert Cossery. Tá falado. Quem quiser conhecer o Egito ( nos meandros, nos entre ) leia Albert Cossery. Ele é demais. Recomendo começar por Mendigos e Altivos, seu romance de estréia, publicado no ano que nasci, 1955, mas que é atualíssimo  como eu... (Rsssssssss) .



«Je ne peux pas écrire une phrase qui ne contienne pas une dose de rébellion. Sinon elle ne m'intéresse pas. Je suis toujours indigné de tout ce que je vois…»


ROSA QUE TE QUERO ROSA VERDE QUE TE QUERO VERDE VERDE QUE TE QUERO ROSA


Verde que te quero Rosa
Mestre Cartola

Verde como céu azul a esperança
Branco como a cor da Paz ao se encontrar
Rubro como o rosto fica junto a rosa mais querida
É negra toda tristeza se há despedida na Avenida
É negra toda tristeza desta vida

É branco o sorriso das crianças
São verdes, os campos, as matas
E o corpo das mulatas quando vestem Verde e rosa, é
Mangueira
É verde o mar que me banha a vida inteira

Verde como céu azul a esperança
Branco como a cor da Paz ao se encontrar
Rubro como o rosto fica junto a rosa mais querida
É negra toda tristeza se há despedida na Avenida
É negra toda tristeza desta vida

É branco o sorriso das crianças
São verdes, os campos, as matas
E o corpo das mulatas quando vestem Verde e rosa, é a
Mangueira
É verde o mar que me banha a vida inteira
Verde como céu azul a esperança

Branco como a cor da Paz ao se encontrar
Rubro como o rosto fica junto a rosa mais querida
É negra toda tristeza se há despedida na Avenida
É negra toda tristeza desta vida

Verde que te quero Rosa (é a Mangueira)
Rosa que te quero Verde (é a Mangueira)
Verde que te quero Rosa (é a Mangueira)
Rosa que te quero Verde (é a Mangueira)


ROSA QUE TE QUERO ROSA, JORGE

Jorge Bichuetti - Utopia Ativa disse...



Marta, perfeito: nossa normalidade pode ser charmosa num comercial de TV ou numa sedução de corpos sem palavras, cheiro ou movimento; já nossa encanto mora na nossa demência. ali na fronteira... onde emergem, ganham vida, "aparecem" as linhas da nossa diferença, nossa singularidade e devires...


O conceito de fronteira de Deleuze é a encruzilhada de G Rosa: encanto, perigo, redemoinhos e encantamentos e magias.


Abraços Jorge








sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Demência fonte do charme

Rizoma de blogs
Uzinamarta_Utopia Ativa


1 comentários:


Jorge Bichuetti - Utopia Ativa disse...

MARTA, VOCÊ ABORDA UM GRANDE TEMA... VI NA SUA POSTAGEM QUE DELEUZE JÁ ADOTAVA NA EXPERIÊNCIA A TRANSVERSALIDADE, EMBORA NÃO A CONCEITUASSE...

ESTOU LENDO UM LIVRO: BIOGRAFÍAS CRUZADAS DE FRANÇOIS DOSSE, QUE TRATA DAS VIDAS E DOS ENCONTROS... NELE, DELEUZE AFIRMA QUE NÃO SUPORTAVA A LOUCURA, ERA PARA MIM UM PARADOXO, ATÉ ESTA SUA POSTAGEM:NÃO SUPORTAVA MAIS JÁ A AMAVA...

JÁ GUATTARI ERA TÃO ANÁRQUICO NAS PRODUÇÕES QUE DELEUZE LHE IMPÔS UMA CRONOMETRAGEM APOLÍNIA DE 8 HS / DIA DE TRABALHO.

vAMOS LENDO, EXPERIMENTANDO E DESVELANDO A VIDA E NOSSOS AMORES.

UM GRANDE ABRAÇO, JORGE.

28 de janeiro de 2011 09:44
------------------------------------------

Sim Jorge, parece que amava mesmo. Tinha parte com o Diabo... E com a erva do diabo.
abraço
Marta

"As pessoas só têm charme em sua loucura, eis o que é difícil de ser entendido. O verdadeiro charme das pessoas é aquele em que elas perdem as estribeiras, é quando elas não sabem muito bem em que ponto estão.

Não que elas desmoronem, pois são pessoas que não desmoronam. Mas, se não captar aquela pequena raiz, o pequeno grão de loucura da pessoa, não se pode amá-la. Não pode amá-la. É aquele lado em que a pessoa está completamente... Aliás, todos nós somos um pouco dementes. Se não se captar o ponto de demência de alguém...
Ele pode assustar, mas, quanto a mim, fico feliz de constatar que o ponto de demência de alguém é a fonte de seu charme." DELEUZE . O Abecedário

Alegria, alegria!!!

Obrigada Landinho, Adriano, Vinício, Gegê que fizeram essa foto navegar até aqui. Nós!!!!!!!!!! Jovens. Troupe. Bando. Nômades. Festival de Inverno 1973. Ouro Preto. capital da contracultura
Nossos heróis de então: Judith Malina e Julian Beck. E Bené da Flauta!!!
Nossa causa: Liberdade
Nossas calças: Indigo blue
Nossos passeios: Cachoeiras, montanhas, lagoas, vilas, vilarejos, picos
Nossa comida: arroz integral, bardana, missô, torta de abóbara...
Nossos trabalhos: restauração de igrejas barrocas com o mestre Jair Inácio
Nossos estudos: Teatro com Celso Nunes ou com Jura Otera ou com Jonas Block; restauração e arte  na Faop com Jair Inácio, Amilcar de Castro, Nelo Nuno (falecido em 1973, aliás); Estética com Moacir Laterza. E por aí vai, muita coisa boa.... Coisas como Oscar Arraez, bailarino argentino, nos dando aula no Festival de Inverno... Rogério Escobar, música. Estudávamos Grécia com Laterza. Fizemos uma festa bacante pelas ruas de Ouro Preto até a Cachoeira das Andorinhas, onde caímos na água vestidos de lençõis , portando flores na cabeça, frutas, garrafas de vinho. Entramos na gruta. Banhamos assim. Dionísios. Deuses.
Nossas santa maluquices: 10 dias de arroz integral na cachoeira das Andorinhas, meia-noite subir para o Pico do Itacolomi, madrugada nadar na gruta.... Ir a pé pras festas de santos nos distritos. Poeira. Risadas.

Parece que foi ontem, mas faz tempo, tantas águas rolaram . Ficou a amizade. Ficou o amor. Ficaram alguns sonhos. Alguns se partiram. Partiram. Racharam. Fissura. A roda girando. E essa foto chegou numa hora hora boa da roda. Eterno retorno da  Alegria, alegria!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!


Eu, de casaquinho branco, atrás está a Betina (arquiteta paulista, nunca mais a vi) , no meio, o saltitante Landinho Ramos, ouropretano, ladeado pelos amigos desde a infãncia ouropretana do Rosário:  Silvinho e Vinício Godoy. Os outros eu não sei. Talvez o Gélcio Forte e o Vandinho. Éramos tantos. Não importava muito o nome, não importava nada de onde veio, para onde vai. Importava ali, o encontro. E  o que vamos fazer?  Á noite dançávamos na praça Tiradentes , tudo improvisado, coro, roda, nada mais nada menos do que o jovem, colega nosso no curso de teatro, futuro grande diretor teatral, Iacov Hilel, nos conduzia na rodas cada vez maiores. Solta alegria. E os homens da ditadura de olho na meninada. De madrugada, curtir a neblina... sumiço do real... apareciam os Inconfidentes. E a voz da Cecília Meireles das escadarias da Igreja do Carmo, em eco: "não fica a bandeira escrita, mas fica escrita a sentença".



Unhas



José Gil: Claro! A impressão que eu tenho, porque assisti, é que a pedago­gia e o ensino de Deleuze são dois: antes e depois do corte que há entre Lógica do sentido e o Anti-Édipo, ou seja, maio de 68. Assisti a essas duas maneiras de ensinar e verifiquei o seguinte: Deleuze era ofuscante antes de maio de 68, mais pejas idéias, pela inteligência e por um charme que ele tinha. Ele tinha um charme que sabia que tinha, ele estava consciente desse charme, e o usava um bocado ironicamente, utilizando as luvas brancas (por causa das unhas, possivelmente) e a maneira como falava com as mãos, no quadro. Todas aquelas eram estratégias de sedução. Depois de maio de 68, sua pedagogia modifica-se completamente. A impressão que eu tenho é que o próprio Deleuze foi aprendendo a sua pedago­gia nos primeiros anos de experimentação. Eu chamo isso de "a experimentação pedagógica do ensino do Anti-Édipo". Porque o Anti-Édipo é inimaginável, não se reproduziu, nem Foucault, nem Châtelet, ninguém fazia cursos assim. As aulas de Deleuze eram apinhadas de gente, fumo e fumaça por todo o lado, de vez em quando, as pessoas gritavam, tinha-se que abrir as janelas e ele espera­va, como sempre, muito calmo. Depois, alguns intervinham, riam-se para Deleuze e diziam: "Deleuze, ainda estás muito longe da loucura!" (como dizia um louco que lá estava). E Deleuze respondia: "Mas eu bem procuro, eu bem procuro aproximar-me!". Não havia, aparentemente, nenhum mandarinato, quer dizer, nenhuma hierarquia entre o professor e os alunos. Isto mesmo materialmente: ele sentava-se em uma cadeira, no mesmo nível que todos os outros que o rodeavam ou que ficavam em pé... "

Leia mais Entrevista com o  filósofo português José Gil, por Tomaz Tadeu e Sandra Corazza. Aliás, encontrei o link  num blog muitissímo bom, uma biblioteca de livros de filosofia, artes e mais: Gambiarre.


Passagens


Foi Hannah Arendt quem me apresentou Walter Benjamim. "Homens em tempos sombrios". Leitura preciosa. Nada mais nada menos do que o "percepto amoroso" da filosofa para com Rosa Luxemburgo, Karl Jaspers, Isak Dinesen, Brecht. Não lembro-me se tinha Heidegger no meio. Mas me lembro de  Walter Benjamin! O Acontecimento.  Na praia do Tombo, no Guarajujá, São Paulo, Hannah Arend me levou a viajar: Alemanha, Nazismo. Linhas de fuga: Espanha. Fronteira.  França. Ansiedade. Depressão. Suicídio. Promessa de um descanso? Logo na França. França de Paris? Paris de  de Passagens? Logo no Guarujá? Quando chorava por Walter Benjamin, um telefonema. Não havia celular. Década de 1980. Não sei bem. Um tempo em que não havia  celular e eu não tinha filhos. Vivia pelas praias. Leve e solta. Lendo. Conspirando contra o eterno retorno do nazismo. Me acharam no hotel. Um hotel no Guarujá. De um alemão. Um alemão estranho. Que gostava de dar tiros na calada da noite. Que nasceu na II Guerra Mundial. Diziam que ele era nazista. Não sei se era, mas era esquisito. Lembro-me dele e do hotel.  Um hotel muito estranho, estranho mas aconchegante. Eu lia na praia, em frente ao hotel. Hannah Arendt sobre Walter Benjamin. O telefone tocou. Eu não ouvi. Mas me chamaram. Atendi. Sua mãe morreu. Minha mãe morreu no dia que conheci Walter Benjamin. Não guardo fotos da minha mãe, mas sempre choro quando vejo a foto do Walter Benjamin.

" Um acontecimento vivido é finito, ou pelo menos encerrado na esfera do vivido, ao passo que o acontecimento lembrado é sem limites, porque é apenas uma chave para tudo que veio antes e depois."

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Pirates & Revolutionaries: Waves of Intensity Traversing the Meat of the Body without Organs


Pirates & Revolutionaires. Mais uma boa dica da Radio Deleuze, o blog que  De-De-De-Dele-Dele-Deleuze. Meu Obrigada a Clifford Duffy pelo link com  estudo das intensidades que atravessam a carne e o corpo sem órgãos: Waves of Intensity Traversing the Meat of the Body without Organs.




Quando o K serve para APRECIAR, fazer a DIFERENÇA, colocar o PROBLEMA...mas NUNCA JULGAR


K  Krítica Kant
D  Desejo Deleuze


Deleuze Educador. EDucador no entre, nos entre, nas entre... Nas entrelinhas, o Dom de ADmirar.

" Por que estudei Kant já que ele não tem nada em comum com Spinoza, nem com Nietzsche, apesar de este último ter lido muito Kant? Não temos a mesma concepção de filosofia. Mas por que, mesmo assim, Kant me fascina? Por dois motivos. Kant é tão cheio de sinuosidades. Um dos motivos é o fato de ele ter instaurado e levado a extremos o que nunca fora levado em Filosofia até então, que é a instituição de tribunais, talvez sob a influência da Revolução Francesa. Mas até então tentamos falar de conceitos como se fossem personagens. Antes de Kant, no século 18, que o precedeu, apresentou-se um novo tipo de filósofo, o investigador. Investigação. Investigação sobre o entendimento humano, investigação sobre isso e aquilo. O filósofo era visto como um investigador. Ainda mais cedo, no século 17, Leibniz foi, sem dúvida, o último representante desta tendência. Ele era visto como um advogado, ele defendia uma causa. E Leibniz pretendia ser o advogado de Deus! Como se Deus tivesse algo a ser repreendido. Leibniz escreveu um maravilhoso opúsculo sobre a causa de Deus. Era a causa jurídica de Deus, a causa de Deus defendida. Há um encadeamento de personagens: o advogado, o investigador e, com Kant, houve a chegada do tribunal, do tribunal da razão. As coisas eram julgadas em função de um tribunal da razão. E as faculdades, no sentido do entendimento, a imaginação, o conhecimento e a moral eram medidas em função deste tribunal. É claro que através de um determinado método prodigioso criado por Kant que chamaram de “método crítico”, que é o método propriamente kantiano. Todo este aspecto me deixa horrorizado, mas é um horror fascinado também, pois é genial ao mesmo tempo. Dentre os inúmeros conceitos que Kant inventou, está o do tribunal da razão que é inseparável do método crítico.

Meu sonho não é esse. Este é um tribunal do juízo. É o sistema do juízo, só que este não precisa mais de Deus. É um juízo baseado na razão, e não em Deus. Não abordamos este problema, mas posso fazê-lo agora, assim não precisaremos voltar a este assunto. Podemos procurar entender... Há um mistério nisso tudo. Podemos tentar entender por que alguém em particular, eu ou você, estaríamos ligados ou nos reconhecemos em determinado tipo de problema e não em outro? O que é a afinidade de alguém com um tipo de problema? Parecem-me os maiores mistérios do pensamento. Nós nos consagramos a problemas. E não é qualquer problema, isso também vale para os cientistas. A afinidade de alguém para determinado problema e não para outro. E uma filosofia é um conjunto de problemas com consistência própria, mas não pretende cobrir todos os problemas. Ainda bem! Eu me sinto ligado aos problemas que procuram meios para acabar com o sistema do juízo e colocar outra coisa no lugar. Dentre os grandes nomes dos que buscam isso, você tinha razão em falar de oposição, estão Spinoza, Nietzsche e, em Literatura, há Lawrence, e guardo um dos maiores para o final: Ataud. Todos para acabar com o juízo de Deus. Isso é muito importante, não é loucura: acabar com o sistema do juízo. Todas estas coisas fariam com que eu não tivesse tanto...
Mas, por baixo disso tudo, e, como sempre, é preciso buscar os problemas que se escondem sob os conceitos. E Kant traz problemas impressionantes, são maravilhas. Ele foi o primeiro a ter feito uma inversão de conceitos impressionante. É por isso que tanto me entristece quando vejo ensinarem aos jovens, mesmo no nível de vestibular, uma filosofia tão abstrata sem tentar fazer com que participem de problemas, que são fantásticos e muito interessantes. Posso dizer que até Kant o tempo derivava do movimento. Ele era secundário em relação ao movimento. Ele era considerado como número ou medida do movimento. O que fez Kant? Não importa como, pois há criação de um conceito. Em tudo o que digo, só tem isso! Estamos sempre avançando no tema “o que é um conceito”. Ele criou um conceito porque inverteu a subordinação. Para ele, é o movimento que depende do tempo. De repente, o tempo muda de natureza, deixa de ser circular. Porque quando o tempo está subordinado ao movimento, por razões longas demais para explicar agora, é o grande movimento periódico, é o movimento de rotação periódica dos astros. Portanto, o movimento é circular. Mas quando o tempo se liberta do movimento e que este passa a depender do tempo, o tempo se torna uma linha reta. Sempre me faz pensar na frase de Borges, apesar de ele ter alguma coisa a ver com Kant: “O labirinto mais terrível do que um labirinto circular é um labirinto em linha reta”. Isso é uma maravilha, mas é Kant! É ele que destaca o tempo. Além do mais, estas histórias de tribunal que medem o papel de cada faculdade em função de tal finalidade... Até que, no final de sua vida, ele foi um dos raros a ter escrito já muito velho um livro onde reviu tudo. A crítica da faculdade do juízo. Ele chega à idéia de que é preciso que as faculdades se relacionem desordenadamente, que se oponham e se reconciliem, mas que haja uma batalha das faculdades e não mais as medidas justifiquem um tribunal. Ele lançou sua teoria sobre o sublime em que as faculdades entram em discordância, em acordos discordantes. Aí, eu gosto muito disso, destes acordos discordantes, deste labirinto em linha reta, sua inversão da relação. Toda a filosofia moderna veio daí, de que não era mais o tempo que provinha do movimento e, sim, o contrário. É uma criação de conceitos fantásticos. E toda a concepção do sublime com os acordos discordantes das faculdades me tocam profundamente. É claro que ele é um grande filósofo. Um grande filósofo. Ele tem um embasamento que me entusiasma, mas o que está construído em cima disso não me toca em nada. Não estou julgando. É apenas um sistema de juízo que gostaria de ver acabado. Mas não julgo."
Fonte: O Abecedário de Gilles Deleuze K - Kant.

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

São São Paulo

"Porém com todo defeito, Te carrego no meu peito"

Tom Zé, em Festival de Música da Record, em 1968, primeiro lugar com a música "São , São Paulo meu amor".  O segundo lugar foi pra Edu Lobo, com uma música para mim: Marta Saré.... "Pra dentro, Marta Saré....". Quem viveu, viveu, não viverá mais esse momento de jubílio libertário em plena ditadura.



"Quem quiser ver o samba amanhecer, vai no Bixiga pra ver, vai no Bixiga pra ver."  Geraldo Filme




São Paulo, minha gente, tão mal falada pelo Brasil afora. Violência, enchente, trânsito, poluição, miséria, pobreza, contraste... É isso também, mas é muito mais. É um caos? É um cosmos? É um caosmo. Se fosse tão ruím como dizem, como explicar tanta gente? São Paulo é ruím? Depende. São Paulo é bom. Depende. São Paulo é ruím, São Paulo é bom? São Paulo é ótimo. Metrópole. Corpo vibrátil. Vibrante.

Não tenho saudade da roça.... Somos 15 milhões de capiaus. 15, 14, 18? Sei lá, perdi a conta. Multidão de anônimos!

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Goya

Francisco de Goya y Lucientes (1746-1828)

Natureza-morta: um perú morto
Óleo sobre tela, 45 x 63 cm
Museo del Prado



Marcos Chaves: a arte que morre de rir




quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Radio Deleuze: um blog que gagueja

Uma das nossas boas conquistas territoriais desterritorializantes no ciberespaço deleuzeano: encontro com a Rádio Deleuze, um blog que fala livremente e, por isso, gagueja...

Nas entrelinhas do Natal

Acho ´Natal uma festa chatíssima porque uma obrigação social. Basta isso para ser chato até a medula. E além dessa obrigação geral, vem as outras obrigações secundárias: comer chester, dar presente, tomar champagne, vestir roupa branca, calcinha vermelha, cumprimentar todo mundo até quem você não gosta etc e tal. É uma baboseira sem fim do espírito de rebanho do qual  mantenho "distância à léguas", como dizia minha mãe.

Mas vejo ou antevejo nas entrelinhas do Natal um certo sossego coletivo que me fascina. Vai chegando perto do tal dia de Natal, isso vai crescendo. Pessoas entrando de férias, uns dias de atoismo, uns dias de não fazer nada, uns dias de parar de comprar, de parar de circular que nem barata tonta, as ruas vão se acalmando, os aeroportos e rodoviárias vão se esvaziando, as pessoas vão se acalmando, ficando mais gentis, mais leves, mais esquecidas da vida, com as risadas mais soltas, com um um ar de "dá um tempo"...  Desse virtual de  um mundo diferente e fascinante nas entrelinhas do Natal, participo e adoro.

Desejo a todos os amigos desse blog, felizes entrelinhas natalinas. 

Neste final de ano, vamos ficar lentox total neste blog.  Sugerimos a todos a mesma coisa. Ficar à toa ou, no mínimo, ficar devagar, divagar, delirar, fazer o que der na telha, não fazer nada, dormir, comer, amar, dormir outra vez, acordar, esquecer, começar de novo, nova garrafa de vinho, novo cigarro, novo passeio, novo mergulho, novo poema, novo romance, de novo pros lençóis, amor de novo, novo amor e por aí vai................... Apenas sugestão, sabendo que há muitas, n, infinitas possibilidades nas entrelinhas do Natal.

Beijos fraternos a  todos os  queridos amigos e queridas amigas desse blog e da pessoa que faz o blog, que sou eu.  Ano que vem, vamos uzinar mais, mas diferente!!!  

Marta




A rádio Uzinamarta oferece essa música ao Vinício Godoy, profeta do devagar e do divagar.   



Ao Jorge Bichuetti, meu Brasil brasileiro, que tem sido o amigo mais amigo desse blog e que tem gostado muito de samba - III.  Beijos Jorge, feliz Natal e muita Utopia Ativa em 2011!!!



Ao meu filho Maurício que está descobrindo a potência da música de Villa Lobos que vai muito além das lindas Bachianas...


sábado, 18 de dezembro de 2010

TAO


Yi Tin, Yi Yiang, tche wei Tao
Um tempo Yin, um tempo Yang
Eis a via, eis o Tao.


Henri Michaux - Ideogramas na China



sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

DEVIRES SUFI : ALEGRE ENCONTRO COM FAHREDIN SHEHU






Há muitos anos tenho a intuição de que a qualquer hora iria encontrar o Sufi.  Foi viajando pela Andaluzia na Espanha que entrei em contato com a poesia Sufi, em Cordoba, uma das cidades mais lindas que já vi...  Desde lá, um poema ali, uma fala do Osho vez em quando, uma outra informação aqui e o Sufi vem entrando devagarzinho no meu mundo... Chegou a hora de uma conversa sobre isso. E ela vai rolar aqui no blog, rizomas com Fahredin Shehu, poeta, calígrafo, sufista, estudioso da cultura oriental, que vive em Pristina, capital do Kosovo.   Vamos falar de  poesia, caligrafia, Sufi, cultura árabe, paz, diferença e convivência étnica cultural etc.  E vamos ter tradução para o português. Entrevistas curtas!!! Aos poucos, doesas homeopáticas...

Por enquanto, segue  trecho de um artigo (muito longo, por isso não dá para publicar aqui) que Fahredin Shehu enviou  sobre a SEMA, uma dança, a dança sufi, muito ligada aos nomes de Rumi e Osho. O texto é em italiano, mas muito fácil de compreender para todos nós, latinos!!!!!!!! 




La Sema, lo Semasa, La Danza Rituale L’esoterismo e l’arte di Rumi


""La sema è la manifestazione del movimento dei corpi celesti la dove lo Sceikh cioè colui che dirige la Sema il mentore; simboleggia il sole oppure l’asse del sistema dinamico della Galassia, invece i Dervisci, gli iniziati in un movimento circolare simboleggiano i pianeti, cosi ché abbiamo a che fare con una danza celeste di unificazione con il Cosmo.
La testa del danzatore della semasa7, si piega a 23°,piegamento identico al asse del pianeta Terra, questo fa si che il liquido del orecchio non si muovi perdendo cosi l’equilibrio. Un piede si mantiene fisso per terra, legato alla gravità, cosi che la linea invisibile verticale tra l’orecchio e la gamba tiene ben saldo il semasa ad non perdere l’equilibrio e cadere.


Anche le mani hanno la loro funzione: quando i palmi della mano sono rivolte una verso il celo e l’altra verso la terra. Una viene dedicata alla luna e l’altra al sole, tutto questo accompagnato con una musica composta appositamente per l’atto della Sema spesso anche vocale."
---------------------------------------------------------------------------------







EU QUERO UM AMANTE...
 RUMI



que quando se mova,
ou se levante,
deva erguer-se da morte,
jorrando fogo para todos os lados.

Nós ansiamos por um amor
como o inferno;
um amor que queima
do inferno até a superfície;
um amor que desafia as ondas do mar
e atira centenas de mares no fogo.

Envolve os céus
como um lenço em suas palmas.
E suspende a luz inexaurível
no forro do mundo.

Com a humildade de um crocodilo
deve lutar como um leão,
não deixando ninguém exceto ele mesmo;
luta, então, com ele mesmo.

deve rasgar as sete cortinas do amor
com a intensidade da sua luz
e os céus devem responder:
'Maravilha! Maravilha!
Uma vez que ele encontre a saída do Sétimo Mar
e dirija-se ao Monte Kaf, ele deverá
distribuir muitas pérolas e corais
pelos continentes da terra...'"

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Grécia, berço da democracia!!! Eis o que rola, 25 séculos após Platão!



Impressionante o envolvimento das crianças e dos jovens nas lutas anti políticas neoliberais na Europa. Acabou a infância? Ou as crianças e jovens se cansaram desse mundo adulto e rabugento?




VILANIA

Como é que no Brasil  se permite que se derrube um imóvel feito este da rua Augusta (São Paulo - Capital)  para levantar um enorme edifício no lugar....? Cadê o Iphan? Cadê o os órgãos de defesa do patrimônio paulistano e paulista? 
O Iphan alega que não conhece a história da casa... e, portanto, ela pode ser derrubada...  

Isso sim é putaria!



A rua Augusta está deteriorada, abandonada, suja? Sim, mas a responsabilidade disso não é do povo que vive nas imediações , nem dos cabarés e muito menos das prostitutas que rodam bolsinhas por ali. A responsabilidade é dos dirigentes, é das elites, é dos proprietários, é dos bem estudados, é dos planejadores urbanos, é dos que têm poder de mando e fazem de São Paulo uma cidade de shoppings centers. Assim, matam as ruas, matam a vida, matam a alegria, matam o patrimônio histórico e arquitetônico, matam o meio de ganhar a vida de milhares de pessoas, matam a civilidade da cidade.


Depois de esfolar as ruas e o patrimônio, vem a especulação imobiliária outra vez.... E levanta os espigões, atraindo mais carros para a região (4 quartos, 8 garagens!!!!). E fazem a cidade ficar mais feia, mais triste, mais poluída, mais morta. Há quem adore cidades mortas, só para automóveis, só para edifícios de aparência moderna.

Tem que ser assim? Há quem diga que tem que ser assim. Mas eu digo: não tem que ser assim. Há muitas outras possbilidades, mais belas, mais felizes, mais construtivistas, mais amorosas, mais cidadãs.

Até quando vamos ter prefeitos e vereadores em São Paulo que defendem mais o preço alto dos terrenos do que o direito à vida e a moradia?

Por que ficamos 10 anos trabalhando para ter o Estatuto das Cidades, se agora ele é jogado às traças? Um imóvel abandonado deve virar moradia social... Tá lá, escrito, debatido, aprovado pelo Congresso brasileiro. É lei das boas, que protege as cidades, protege o povo. Por que não é aplicada?

Nadinha de aplicação do Estatuto das Cidades até agora. Se aplicado, São Paulo pode resolver grande parte do seu déficit habitacional apenas usando os imóveis fechados e abandonados há muitos anos. São mais de 500 mil imóveis abandonados no centro da cidade!!! Especulação imobiliária pura, desavergonhada. Por que o poder público não compra e aparelha esses imóveis para ter neles residências? Por que o povo não tem o direito de viver dignamente? De viver no centro, se é lá que tem mais trabalho, se é lá que tem melhor infraestrutura de transporte, educação, cultura saúde etc.? Por que é que o povo tem que morar na "casa do chapéu" se pode morar no centro?

Chamam isso que está aí de sociedade racional? Chamam isso de sociedade da informação e do conhecimento? Pois eu chamo isso de VILANIA...

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Fahredin Shehu

Está nos seguindo o poeta e calígrafo Fahredin Shehu, de Kosovo.  Welcome!

Fahredin Shehu was born in Rahovec, South East of Kosova, in 1972. graduated at Prishtina University, Oriental Studies. M.A. in Literature. His work has been translated in English, Serbian, Croatian, Bosnian, Roma, Swedish, Turkish, Arabic and Romanian. Fahredin Shehu works in Administration of Radio Television of Kosova RTK and is ambassador of Poets to Albania by Poetas del Mundo, Santiago de Chile. He also actively works on Calligraphy discovering new mediums and techniques for this specific for of plastic art.


Published books:
•NUN- collection of mystical poems, 1996, author’s edition
•INVISIBLE PLURALITY- Poetical prose, 2000, author’s edition
•NEKTARINA- Novel, Transcendental Epic, 2004, publishing House, Rozafa Prishtinë- project of Ministry of Culture Sport and Youth of Kosova
•ELEMENTAL 99- Short poetical mystical stories, 2006, Center for positive thinking, Prishinë
•KUN- collection of transcendental lyrics, 2007, Publishing House LOGOS-A, Skopje, Macedonia

 
Eternal present
Fahredin Shehu
Unless you become beautiful
You have no right to approach Beauty

If the one longs only for flowers
I shall bloom at once the entire spring

Until you leave the future behind
There’s no mere chance you make thou art a living influence

If I long only for eternal unknown
I tell you again I break this goblet
Into fragments and resurrect as phoenix
Then from my new goblet you may drink
Unpolluted vine
With the lips of deadly curse

Then my Art is for real




Milhares de estudantes e desempregados italianos protestaram hoje nas ruas das cidades


"A crise consiste precisamente no fato de que o velho está morrendo e o novo ainda não pode nascer." Gramsci


“Não pretendo nada,
nem flores, louvores, triunfos.
nada de nada.
Somente um protesto,
uma brecha no muro,
e fazer ecoar,
com voz surda que seja,
e sem outro valor,
o que se esconde no peito,
no fundo da alma
de milhões de sufocados."
Carlos Marighella - O país de uma nota só 



The silent evolution

403 life-size fugures and occupying an area of approximately 420 square meters, The Silent Evolution (A Evolução Silenciosa) besides its aesthetical component has in its purpose to permit the formation of an artificial reef in Cancun, Mexico. This installation is part of the underwater museum called MUSA (Museo Subacuático de Arte) a project founded by Jaime Gonzalez Cano of The National Marine Park, Roberto Diaz of The Cancun Nautical Association and Jason deCaires Taylor, located in the waters surrounding Cancun, Isla Mujeres and Punta Nizuc.

Em português, uma matéria, aqui.


Afirmação da vida

Cântico XIII
Cecília Meireles

Renova-te.
Renasce em ti mesmo.
Multiplica os teus olhos, para verem mais
multiplica os teus braços para semearem tudo.
Destrói os olhos que tiverem visto.
Criar outros, para visões novas.
Destrói o braço que tiverem semeado,
para se esquecerem de colher.
Sê sempre o mesmo
sempre outro.
Mas sempre alto.
Sempre longe.
E dentro de tudo.

Samba

"Quem acha vive se perdendo..."
Noel Rosa
Cadê você? Onde tô?


domingo, 12 de dezembro de 2010

radio deleuze: the use of philosophy

radio deleuze: the use of philosophy

Para o Jorge Bichuetti que "anda apaixonado por sambas" - II






Para o Jorge Bichuetti que "anda apaixonado por sambas"

Não deixe o samba morrer! 
 Eu tenho mil razões para perdoar (o samba atravessado)...


Pelo visto, mudanças na política monetária!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!



Começou a mudança

Amir Khair[1]


O presidente Lula tem sido acusado de influir no processo de escolha das pessoas centrais que deverão compor a nova equipe de governo. É natural que ocorra sua influência, especialmente para o início de mandato, que se propõe a dar continuidade ao seu governo e no qual Dilma participou em função de destaque.

Uma dessas pessoas centrais da preferência de Lula, no entanto, foi recusada: Henrique de Campos Meirelles, o todo poderoso presidente do Banco Central (BC) durante os oito anos do governo Lula. A escolha de Guido Mantega e a recusa na continuidade de Meirelles parece ter sido o sinal dado para as novas mudanças a serem feitas na política econômica, especialmente na política monetária para a redução da Selic.

Dilma escolheu para o lugar de Meirelles, Alexandre Tombini, diretor de normas do BC, funcionário de carreira do governo, e não proveniente do mercado financeiro. A não vinculação com o mercado financeiro poderá contribuir para uma nova visão de política monetária, mais autônoma e que não aposte todas as suas fichas na inadequada Selic como instrumento de controle da demanda, como afirma o mercado financeiro.

Foi dada a Tombini pela futura presidente a garantia de autonomia do BC, mas as recentes decisões de restrições ao crédito para controlar a demanda foram tomadas pelo Conselho Monetário Nacional (CMN), que é presidido pelo Ministro da Fazenda e composto pelo Ministro do Planejamento e o Presidente do BC. A operacionalização dessas decisões compete ao BC, mas a decisão foi do CMN.

Parece que a nova forma de fazer política monetária caminha para o modelo chinês, que prioriza o controle da liquidez ao invés da taxa básica de juros para obter resultado no controle inflacionário. Vamos aguardar.

Fato é que o mercado financeiro foi pego de surpresa. Estava pressionando novo aumento para a Selic, aproveitando a elevação da inflação devido à subida circunstancial do preço dos alimentos, combustíveis e commodities, o que contraria a política do governo de redução da Selic para cumprir três objetivos: a) reduzir as despesas com juros da dívida interna; b) reduzir o custo de carregamento das reservas internacionais e; c) contribuir para não agravar ainda mais a apreciação do real, especialmente agora que os Estados Unidos começarão a despejar US$ 600 bilhões no mercado e o Banco Central Europeu (BCE) irá emitir euros para reforçar a ajuda aos países da zona do euro em sérias dificuldades.

Além da Grécia e Irlanda, já socorridas, Portugal, Espanha e Itália estão na fila de espera. O BCE prometeu realizar compras massivas dos títulos soberanos. Algumas análises, segundo o jornal Valor Econômico do dia 2, imaginam que vem aí a política de afrouxamento monetário europeia, com o BCE sendo capaz de colocar à disposição do fundo de estabilização financeira até US$ 2,6 trilhões!

Apesar da inundação de liquidez internacional e os danos que causa ao Brasil, a maioria do mercado financeiro – Bradesco é exceção - ainda insiste na elevação da Selic na reunião do Copom em janeiro e que termine 2011 em 12,25%. Esse risco para janeiro existe, caso o IPCA continue em nível elevado devido a fatores temporários ou casuais e o BC ceda à pressão do mercado financeiro, abdicando de sua autonomia. Assim, parece de bom senso que o controle da inflação ou as decisões do Copom sejam tomadas desconsiderando as variações de preços sazonais e circunstanciais. É o que fazem boa parte dos bancos centrais. Caso necessário, o CMN, que define as metas de inflação, tem poder de alterar o indexador inflacionário para que não fique sujeito a bruscas oscilações como as que ocorreram e estão ocorrendo este ano.

A precipitação do mercado financeiro para elevar a Selic está baseada na subida de preços dos alimentos, commodities e combustíveis e no interesse de elevar seus lucros na compra de títulos do governo federal engordados pela maior Selic. A ameaça da inflação é o pretexto sempre usado para elevar a Selic. A resolução do CMN que passou a vigorar a partir do dia 6 e outras que poderão ocorrer vão contra a estratégia do mercado financeiro de pressionar o BC e parecem seguir a determinação da presidente de baixar a Selic.

Até esta decisão do CMN, o BC afirmava junto com o mercado financeiro, que a forma de reduzir o ímpeto da demanda é elevar a Selic. Essa política atravessou os mandados de FHC e Lula, foi a responsável pelo déficit fiscal e a valorização excessiva do real com desdobramentos sérios sobre a indústria na competição interna e externa com empresas do exterior. As empresas sediadas no País têm a desvantagem de sofrer o chamado custo Brasil, formado pelos gargalos e custos elevados de infraestrutura e logística, carga tributária e juros altos, além um sistema burocrático pesado.

Segundo estudos da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (FIESP), o processo de desindustrialização está em curso. O coeficiente de importação da indústria brasileira subiu de 16,9% no 2.º trimestre de 2009 para 22,7% no 3.º trimestre de 2010 e poderá ao final deste ano ficar próximo de 25%. Além disso, a indústria de transformação para sobreviver está substituindo matérias-primas e máquinas locais por importadas.

Esse quadro deve servir de alerta para não agravar ainda mais o problema com a elevação da Selic e para isso vale recordar que ela não cumpre mais a função de restringir a demanda, mesmo sendo a mais alta taxa de juros real do planeta. Exemplo disso ocorreu a partir de maio quando a Selic subiu 2,0 pontos percentuais (pp) de 8,75% para 10,75% e os juros ao consumidor, que pode reprimir a demanda, caiu 1,7 pp. Mas o que mais chama a atenção é a afirmativa do BC e do mercado financeiro que uma alteração na Selic leva nove (!) meses para fazer efeito sobre a inflação. Num mundo dinâmico, globalizado, com tantos fatores influindo sobre a inflação a cada dia, tomar uma decisão cujo efeito leva tanto tempo evidencia a inadequação deste desgastado instrumento para controlar a demanda.

Mas já ficou claro para algumas análises, que desde o Plano Real a política do BC para o controle inflacionário foi a de manter a Selic elevada para atrair dólares e com isso apreciar o real. Assim, barateia as importações e as amplia para atender a demanda. A mola mestra do controle inflacionário foi até agora a âncora cambial.

O real foi a moeda que mais se apreciou perante o dólar levando a conta externa passar de superavitária a deficitária. As críticas se avolumaram e começaram a surgir dúvidas quanto à exposição das contas externas do País, dependente cada vez mais de produtos primários. Com a queda contínua do dólar perante o real, o Ministério da Fazenda se viu obrigado a elevar sucessivamente o IOF sobre as aplicações de estrangeiros em títulos do governo. O objetivo foi anular a estratégia do BC de manter a Selic elevada para atrair o capital estrangeiro em títulos do governo e assim formar a âncora cambial.

Com a injeção de US$ 600 bilhões a ser feita pelo Banco Central americano perde o sentido manter a Selic elevada, o que aceleraria o processo de desindustrialização. Essa é a questão principal a ser enfrentada nos próximos anos. Assim, espero que a Selic inicie a partir de janeiro seu processo de queda e venham novas restrições para a entrada de dólares com maiores tributações e restrições no campo da regulação.

As decisões do CMN mostraram nova postura do governo para tentar controlar a demanda de forma imediata ao encarecer o crédito. Resta, no entanto, acompanhar com atenção se essas medidas irão atingir as causas principais da evolução recente da inflação puxada pelos alimentos, commodities, combustíveis e serviços. Tenho dúvidas, pois a retomada da inflação tem mais a ver com um choque de oferta de alimentos a nível mundial e elevação do preço das commodities devido à desvalorização internacional do dólar, do que pressão de demanda, que atua mais sobre os serviços. É importante, no entanto, verificar como o encarecimento do crédito atinge os preços dos serviços.

Caso na nova política econômica as decisões sobre o controle inflacionário forem tomadas de forma mais integrada e com vários instrumentos de controle, como fez agora o CMN, as chances de sucesso serão maiores. Ao que parece a nova política econômica com o fortalecimento do Ministro da Fazenda, a troca de comando BC e possivelmente de alguns membros no Copom, finalmente estarão dando o sinal de que começou a mudança na condução de uma economia mais sólida, eficaz no controle da inflação e atenta à evolução cambial decorrente da liquidez internacional em franca expansão.

[1] Mestre em Finanças Públicas pela FGV e consultor. Esse artigo foi publicado no Estadão, Caderno de Economia, hoje.