domingo, 9 de maio de 2010

Mais de 1/4 da população mundial na internet

Dados de Dezembro de 2009 :  % da população conectada à rede mundial
Africa: 8,7
Asia: 20,1
Europe: 53
Oriente Médio: 28,8
América do Norte: 76,2
América Latina/Caribe: 31,9
Oceania/Austrália: 60,8
Total: 26,6

Saiba mais direto na fonte: Internet World Stats

sábado, 8 de maio de 2010

EXCELENTES O DEBATE E A AULA ONTEM NA PCS 5757

DEBATE: CRIAÇÃO DE OBJETOS DE APRENDIZAGEM OU WEB 2.0 NA EDUCAÇÃO?  DEPENDE DO CASO....

Excelente o debate ontem em sala de aula entre alunos e professores da PCS 5757, ministrada pelos professores-pesquisadores  Romero Tori  e Itana Stiubiener (também professora - e minha orientadora - na UFABC). Cheguei um pouco atrasada e  quando entrei na sala senti a turma em flow numa roda bonita. Diálogo!   A questão em debate: desenvolvimento de objetos de aprendizagem ou aprendizagem se utilizando de  recursos da web 2.0?  Todos se posicionaram e deram exemplos de problemas e sucessos em programas que se utilizam de um ou outro ou de soluções combinadas. Há na turma diversas pessoas que pesquisam e trabalham em educação e todos eles com experiências muito interessantes na resolução de problemas concretos. Então, foi muito mais do que um debate teórico. 

Gostei particularmente da fala do colega, engenheiro Sílvio Stanzini. Ele é contra a utilização da web 2.0 como recurso para  sustentar um programa de aprendizagem. Propõe a construção de objetos de aprendizagem em que os alunos participem da construção. Aliás, o trabalho de mestrado dele (Um ambiente baseado em grades computacionais para suporte a aplicações voltadas à produção de objetos de aprendizagem) é nessa linha. Eu já havia lido essa dissertação de mestrado  dele e gostado muito porque compreende um ambiente de produção de conhecimento descentralizado e mobilizador do processo pedagógico.  Foi muito útil ler esse trabalho para ter uma visão mais ampla e crítica  dos LMS - Learning Manangement Systems por ocasião de um trabalho que eu estava fazendo sobre o Tidia-AECOL.

O Sílvio interagiu com essa matéria e fez o seguinte comentário que copio e colo aqui pra ficar mais acessível e enriquecer a matéria: " Os créditos do processo pertencem de fato ao Labvirt, que criou esse processo pedagógico de produção de conteúdo. O meu mestrado restingiu a fazer um sistema que consiga tornar esse processo viável na internet, foi um desafio justamente porque é um processo que tem potencial de atender a demanda de um ensino mais contextualizado e tão necessário para tornar os alunos mais críticos com relação ao aprendizagem, porém envolve muitas competências e um trabalho colaborativo muito intenso e cuidado, pois para tratar de educação deve sempre tomar cuidado!!"


Apesar de achar muito interessante a proposta do Silvio, que considero bastante importante para dar conta dos problemas do ensino fundamental e médio, me posicionei diferente, tendo como substrato a minha experiência que é mais de auto-aprendizagem.  Gosto de aprender por mim mesma, de formular  meus problemas numa investigação, de escolher meus caminhos, de me arriscar nos labirintos do conhecimento etc. Por isso, adoro o ambiente da internet com toda a sua riqueza de redes sociais, bibliotecas, blogs,  revistas científicas, museus, recursos educativos abertos etc. Mas reconheci na minha fala nesse debate que a minha visão é mais adequada para estudos-pesquisas, em programas de pós-graduação, com aprendizes mais maduros, capazes de selecionar criteriosamente suas fontes de pesquisa. Não creio que essa minha preferência possa ser estendida ao conjunto dos aprendizes porque há muitas situações, diferenças de cultura, interesses etc. De qualquer forma, sou adepta do crescimento de recursos educacionais abertos e da expansão da web 2.0. Inclusive sugiro aos colegas vejam minha postagem de uns dias atrás sobre Recursos Educativos Abertos

No meu entender, a conclusão que se pode tirar desse debate é que depende do caso. Em alguns casos, talvez a maioria, desenvolvimento de objetos de aprendizagem; em outros, web 2.0; em outros, solução combinada; em outros, outras soluções.  Aliás, acho que essa é uma conclusão que vale para tudo na vida: sem posições dogmáticas, a gente sempre deve ver qual é a situação específica, qual é o problema. Tendo o problema e o contexto bem definidos, a gente já tem um bom pedaço da solução. Isso sim foi um bom debate. Parabéns ao Romero, Itana e colegas pelo excelente encaminhamento da conversa.  

AULA DE REALIDADE VIRTUAL AUMENTADA. QUE DELÍCIA!

Depois do debate, tivemos a brilhante exposição do professor Romero sobre Realidade Virtual Aumentada. O professor Romero é daqueles professores que a gente pode chamar, sem medo de errar, de mestre. Em primeiro lugar porque ele tem um jeito de agir em sala de aula que cria uma clima de interesse, diálogo e alegria. Não de alegria boba, de piada de cursinho. Alegria de aprender, é isso que quero dizer. Em segundo lugar, ele é um professor que porta e transmite muito conhecimento, sempre remetendo os alunos às boa fontes para aprofundar o conhecimento. E, mais, ele motiva o aluno a perder o medo de criar. Por exemplo, saí da aula ontem mobilizada não só para ler a rica bibliografia sobre jogos na educação e realidade virtual aumentada, bem como para usar ferramentas disponíveis para criar realidade virtual aumentada. Logo eu que nem sei direito o que é realidade virtual aumentada. Mas vou saber. Por enquanto, só sei um bocado de realidade aumentada.

Sobre Realidade Virtual e Aumentada, para quem tiver interesse, fazer download free do livro: Fundamentos e Tecnologia de Realidade Virtual e Aumentada, organizado por Romero Tori, Claudio Kirner e Robson Siscouto.

O que estes dois senhores têm em comum, além de usarem chapéu?

Frase do dia hoje
"Há inteligência na intuição e há intuição na inteligência."
Henri Bergson




Frase do dia ontem
"Por onde passa a ciência, passou há muito tempo a poesia."
Sigmund Freud

quarta-feira, 5 de maio de 2010

Fazendo rizoma de blogs

Construção de conhecimento
"(...)los modelos hegemónicos de producción investigativa tienen distintos ámbitos epistémicos de construcción de conocimiento. Mayormente son producciones acríticas, supuestamente desprovistas de lo valorativo e ideológico del sujeto y que traducen "la verdad" a secas; una verdad total a la cual nosotros tenemos que alinear.(...) Cualquiera que desee construir efectivamente algo en el campo de la investigación,(...), debe ser un gran cuestionador de lo obvio."

Gregório Khazi. La subjetividad y sus límites; influencias en la investigación. Exposición realizada en el Taller Seminario de Investigación Periodística, realizado en la Facultad de Ciencias Sociales de la Universidad Nacional de Lomas de Zamora.
Disponível no post de um  blog MUITO INTERESSANTE de Jorge Bichuetti: Utopia ativa.

Visualização de dados

Pessoal da PCS 5757, gostei demais de ler a reportagem  do Terra - Tecnologia sobre a brasileira Fernanda Viégas, considerada pela revista FastCompany, "uma das mulheres mais influentes do mundo". O trabalho dela, entre outros, é em visualização de dados.

Selecionei e colei abaixo alguns trechos da reportagem e da entrevista de Alexandre Rodrigues: Conheça Fernanda Viégas, brasileira que é a "senhora planilha" em que Fernanda diz: "A visualização é um meio de comunicação. É que nem escrever. A partir do momento em que se aprende a escrever, temos a oportunidade de fazer coisas muito distintas: desde provar um teorema matemático até escrever poesia. Assim é com a visualização de dados: através dela conseguimos fazer descobertas científicas, incentivar o debate público e até mesmo criar obras de arte que emocionam e engajam",...


Conforme Rodrigues, " Com a experiência, ela percebeu que infográficos podiam funcionar como ferramentas sociais. Foi o ponto de partida para o Many Eyes, projeto da IBM - onde começou a trabalhar em 2005 - criado em parceria com o designer Martin Wattenberg, no qual qualquer pessoa pode enviar dados e organizá-los visualmente. É possível navegar pelos dados alheios, interagir ou encontrar novos padrões. A ideia básica: é possível um gráfico sobre quase tudo. Sejam as principais palavras usadas por Barack Obama em seu discurso de posse como presidente dos Estados Unidos, seja o consumo de água em um condomínio."


Mais alguns trechos da entrevista "Todos nós adoramos espelhos" :  

Alexandre Rodrigues - Numa palestra em novembro, você ressaltou que reunir e analisar dados não é mais uma tarefa disponível apenas a pesquisadores. Para demonstrar, montou um gráfico sobre os personagens da novela Viver a vida. Pode existir um gráfico para tudo?

Fernanda Viégas - Existe um gráfico para todo assunto que você consiga destilar na forma de dados. Uma das mudanças mais interessantes dos últimos anos é a percepção de que dados não são somente números. Textos, imagens, sons, vídeos também são dados! Isso significa que estamos abrindo oportunidades de análise computacional sobre aspectos da vida humana que simplesmente não existiam antes. Por exemplo, podemos começar a analisar toda a literatura humana e tentar entender padrões que até agora eram desconhecidos. Podemos começar a estudar como diversas línguas evoluiriam em uma escala inimaginável há alguns anos.

Alexandre Rodrigues - A revista The Economist falou recentemente que estamos no alvorecer da "revolução industrial das informações". Considerando que os dados muitas vezes estão disponíveis, mas não organizados, como impedir que se percam ou se diluam?

Fernanda Viégas - A boa curadoria de dados online é difícil e poucas organizações têm uma abordagem efetiva nesse sentido. Não só é preciso saber agregar e organizar dados mas, na era da internet, também é necessário se pensar estrategicamente em como compartilhar esses dados com o resto do mundo. É importante fazer com que os dados sejam "acháveis" e "amigáveis" ao desenvolvedor. Para que os dados sejam facilmente encontrados, é crucial o uso de metadata - algum tipo de descrição sobre o conteúdo dos dados, de quando são, qual a fonte, etc. Com relação a formatos, arquivos que sejam diretamente legíveis por máquinas - XML, JSON, ou CSV - são sempre preferíveis a arquivos feitos para os olhos humanos - como PDF, por exemplo. Quando pelo menos um dos elementos acima está presente, há uma boa chance de que alguma pessoa ou comunidade começe a fazer bom proveito dos dados (visualizando, publicando artigos sobre o conteúdo), iniciando assim um ciclo virtuoso que incentiva um maior cuidado com a distribuição de dados.

Ilustrações: Fotos de trabalhos de Fernanda Viégas, copiados da galeria que ilustra a reportagem.

terça-feira, 4 de maio de 2010

Mudanças no comportamento dos internautas norte-americanos

Vale a pena dar ao menos uma olhada na pesquisa realizada recentemente sobre o uso da internet pelos norte-americanos. A adesão dos jovens cresceu bastante, chegando quase ao limite. O grupo com 65 anos e mais é o que mais cresce, ainda com grande potencial de expansão.




Entre as mudanças, os jovens estão blogando menos, ao contrário do comportamento dos adultos.

Cresce o uso das redes sociais pelos adultos. E o líder é o Facebook.

Clique abaixo para acessar as partes do relatório da  pesquisa Social Media and Young Adults, realizado pela  Pew Research Center.  
Summary of findings
Introduction
Internet adoption and trends
Gadget ownership and wireless connectivity
Social media
The internet as an information and economic appliance in the lives of teens and young adults
Acknowledgements and methodology

domingo, 2 de maio de 2010

Education 2.0: the importance of ownership

Muito bom esse artigo, dica do Pierre Levy no twitter. Original disponível no O´Reilly Radar.  

Education 2.0: The importance of ownership
by Rob Tucker *

I've been teaching adults for almost twenty years. First as a lecturer, then as a professor and for the last ten years as a coach and facilitator for large organizations all over the world. I love technology and the possibility that it represents but I believe that technology can only ever enable educational success. It rarely drives. As technology becomes more pervasive we must shift our focus to the driving factors. I would argue that a key driver for educational success is the internal sense of ownership each student has for his or her own development. If they have this, they will find a way to succeed. If they don't, the technology enables ever greater levels of complacency.

For example, companies offer more and better educational content to their employees each year via technology. The delivery mechanisms become more sophisticated, the market analysis and demographic segmentation become more precise. The richness of the experience and the connectedness of the learning with the world beyond the classroom becomes ever-broader. Do employees learn more today than they did in 1970? In 1900? I'm not sure. I've seen no compelling evidence either way. The ones who really want to learn, learn more. The self-starters learn more. The employees of the best companies learn at a breathtaking pace but that has more to do with these company's ability to attract those who are committed to their own self development than it does with the quality of the educational technology. Students who own their own development use new technology well - it serves as an accelerant to their educational success. But the accelerant is not the spark.

This is the case for adults - employees in the world's largest and richest organizations. Is it the case for children? I don't know. Probably.

I was hiking with my son yesterday. It was a long hike for a boy his age and he asked me, “Dad, do your feet hurt?” I turned my head as we walked and said, “Yeah. They hurt. But not all hurting is bad and you wanted to get to the top of the hill. Do you want to stop?” He thought about it for a long while, ten, maybe twenty steps and said, “no, but my feet hurt too. I’ll be glad when we get to the top.” Ed 2.0 won’t make our feet not hurt. We’ll just be hiking to more wonderous places.

Ed 2.0 won’t be a kinder and gentler place, free from conflict and strife. It will be a hard place. A place where trolls and naysayers and those who would discourage others have the same loud microphone as anyone else. For each online Gandhi, an online bully. It will be a confusing place. A painful place. It will also be a wonderful place, a place where real liberation and intellectual progress will be possible in ways and on a scale we have never seen in human history.

Ed 2.0 isn’t only or even primarily about technology. It is about arming students with the tools and the fierce determination they will need to learn with and through that technology. It is about encouraging intellectual entrepreneurship - creating of our students hundreds of millions of one-person startups, kludging their way to happiness and success.

Ed 2.0 is about encouraging ownership - genuine heartfelt ownership of one’s own educational destiny. The institutions will transform faster than we can keep pace. Between the cracks of our existing educational infrastructure will grow varied species of educational delivery the likes of which we have never seen and cannot possibly forecast. What our students will need is a love of learning but we should not mistake this for an easy love affair. A love of learning is a hard relationship. Learning hurts sometimes. Learning is scary most of the time. It’s impact is all-too-often proportional to its agony. As Benjamin Franklin described it, “Those things that hurt, instruct.”

To paraphrase MLK, we must teach our students that suffering is redemptive and that that redemption takes the form of learning. Ed 2.0 is teaching a student what to do when the system doesn’t work, when the teacher is bad, when the school is failing, when the district is broke. The answer in each case is to rise above the failure and to use the power of technology to surmount each barrier. That’s the real model of liberation with technology - it’s not the gleaming cities of glass, it’s the kluge with wires poking out, too much Cat 5 cable, and the fuses in your house always on the edge of tripping because you’re downloading too much information. It’s turning on the fire hose. It’s taking the spark that is the desire to learn and building into an unquenchable fire.

* RobTucker tem um blog sobre educação corporativa muito interessante. Read about leading - Leardership, Technology & the Economic Future

quinta-feira, 29 de abril de 2010

Um pouco de poesia na nossa vidinha


''Tudo aquilo que a nossa civilização rejeita, pisa e mija em cima, serve para poesia.'' 
Manoel de Barros



Manoel de Barros é um dos meus poetas preferidos. E eu o sigo no twitter, e ele também me segue. Acho que ele segue a todos que o seguem. Seguir sim, perseguir jamais.  Inspirada na sua poesia, tenho escrito umas coisinhas. Não posso dizer que seja poesia porque poeta não sou. Quem me dera ser um Manoel de Barros, um Carlos Drummond, um Fernando Pessoa, um Manuel Bandeira, um Federico Garcia Lorca, uma Cecília Meireles, uma Florbela Espanca, uma Clarice Lispector  e tantos outros poetas que tornam a minha existência possível nesse mundo tarado por notícias e reality shows.

Essas coisinhas que venho escrito tenho chamado de NEM POESIA, NEM TE CONTO. Vez em quando vou postar as menos ruizinhas aqui. Eis as mais recentes, de ontem e antes d´ontem.

SER LATA
Nasceu lata. Criou-se lata. Lata foi, lata é. Ser-viu-se lata. Ora cheia, ora vazia, óleo. Na dispensa, mantimentos. Antúrio, gerânio, muda no jardim acolheu. Desprezada, altiva lata de lixo. Agora gasta, abandonada. Como se não-ser fosse, vêm os pés, vêm os chutes. O ser-vil nem ao menos desconfia da sua longa existência de ser-lata.

SEM PÉS NEM CABEÇA
Minha mãe ordenava: "pés no chão, cabeça no céu". Mas, mãe... (há sempre mas na boa mãe). Vem a desordem do chão, arrasto-me. Morro sem céu. Renasço sem mãe.

CANÇÃO DE AMOR
Os amigos de Scott diziam: larga essa louca, ela vai arruinar a sua vida.
Os familiares de Zelda diziam: você não deve amar um alcoólatra.
Scott e Zelda continuaram a se encontrar.
Scott dizia à Zelda: adoro você minha louquinha.
Zelda dizia à Scott: como são deliciosos seus beijos de uísque.
Anos depois, Zelda faleceu num hospício, Scott morreu de cirrose.
O caso apenas confirma a tragédia que é a vida e o amor como sua canção preferida .

ESTILETE
Escrever é estiletar a pele. Fazer o sangue vir à superfície.

INTERNET
O melhor de escrever na internet é não ter que vender livro.

quarta-feira, 28 de abril de 2010

CORPO E PENSAMENTO

"A partir das idéias de Nietzsche, Spinoza e Bergson, podemos compreender a urgência de estabelecermos outro sentido para os estudos do corpo e do pensamento, rompendo com a clássica dicotomia corpo/mente, para podermos, enfim, afirmar a potência que é comum a ambos."
Excelente artigo "Corpo e pensamento - a invenção de outro sentido" do jovem e maduro filósofo e escritor  Amauri Ferreira (foto), cujo download das seis páginas em PDF está disponível aqui.

terça-feira, 27 de abril de 2010

RECURSOS EDUCATIVOS ABERTOS

Declaração de Cidade do Cabo para Educação Aberta. Abrindo a promessa de Recursos Educativos Abertos. Você pode ler e assinar a declaração (em português)  aqui

O que são Recursos Educativos Abertos
A UNESCO realizou em 2002 evento para debater a disponibilização de recursos educacionais de forma universal, designando o termo Recursos Educacionais Abertos, com a seguinte definição: "Open Educational Resources are defined as “technology-enabled, open provision of educational resources for consultation, use and adaptation by a community of users for non-commercial purposes.” They are typically made freely available over the Web or the Internet. Their principal use is by teachers and educational institutions support course development, but they can also be used directly by students. Open Educational Resources include learning objects such as lecture material, references and readings, simulations, experiments and demonstrations, as well as syllabi ,curricula and teachers' guides.".

Exemplo de Recursos Educativos Abertos
Connexions : a place to view and share educational material made of small knowledge chunks called modules that can be organized as courses, books, reports, etc. Anyone may view or contribute: authors create and collaborate; instructors rapidly build and share custom collections; learners find and explore content.

segunda-feira, 26 de abril de 2010

A FORÇA DOS CONHECIMENTOS LIVRES

Pessoal da PCS 5757, veja que legal esse seminário. Por que a gente não organiza um semelhante na USP ou na UFABC? Pelo que estou percebendo (posso estar enganada), nos Estados Unidos, falar em cultura digital, quase sempre é falar em negócios. Business. Ok, business, mas a vida não pode ser só business. Na América do Sul, a liberdade é um tema muito importante, por isso a força do debate sobre conhecimentos livres. Aliás, concordo com o Boaventura Santos: afora a América do Sul, o resto do mundo está de joelhos diante do neoliberalismo. A América do Sul é o único lugar do mundo que tem experiências importantes alternativas à globalização hegemônica.
PS: Gente, exagerei um bocado quando escrevi "o único lugar do mundo". O correto seria "A América do Sul é o lugar do mundo que vem desenvolvendo as mais significativas ações em prol de alternativas à globalização hegemônica." Melhorou? Quanto ao resto do mundo estar de joelhos diante do neoliberalismo, acho que não estou muito errada  em se tratando de políticas públicas.  Se estiver, me aponte. Precisamos olhar para o nosso continente e observar o que está rolando de  interessante nele e de desinteressante também. Se quiser acompanhar melhor a América do Sul,  considero que uma das  boas fontes na internet é o operamundi . Também acho interessante acompanhar as formulações do Boaventura Santos. E tem artigo do engenheiro Darc Costa "A América do Sul é o nosso futuro". Quanto à situação da internet na AS, vou pesquisar melhor os dados atuais. 

domingo, 25 de abril de 2010

A VIDA COMO POTÊNCIA

"Todos os viventes interdependem, e todos cedem ante a mesma pulsão formidável. O animal apóia-se sobre a planta, o homem cavalga a animalidade e a humanidade inteira, no espaço e no tempo, é um imenso exército que galopa ao lado de cada um de nós, adiante e atrás de nós numa carga avassaladora, capaz de vencer todas as resistências e de superar muitos obstáculos, mesmo talvez a morte." Henrique Bergson - A evolução criadora (1907)

sábado, 24 de abril de 2010

A TECNOLOGIA COMO IDEOLOGIA. TUPI OR NOT TUPI?

Tecnologia não é nem perdição nem salvação. É trabalho. O homem, desde que homem, sempre desenvolveu a técnica para solucionar problemas da sua subsistência. Mas o que a gente ouve das bocas, por todo lado,  é a ideologização da técnica. Assim, tenta-se não ver ou esconder o fato: apropriação por uns poucos daquilo que é de todos. Mistificação como forma de dominação. Na terra Brazilis, a primeira manifestação da técnica como ideologia foi  solenemente expressa por Pero Vaz de Caminha  quando ousou classificar os tupis de "atrasados". Não fossem os tupis com as suas técnicas de produzir farinha de mandioca, os colonizadores teriam morrido de fome. Hoje em dia, na mesma terra Brasilis, o que a gente vê é uma parte considerável da elite intelectual completamente avessa à discussão política da questão técnica. Essa  elite quer estar na ponta, consumindo conceitos e produtos técnicos, por exemplo, das telecomunicações. Mas não quer enfrentar, por exemplo,  a seguinte questão: a exploração  do mercado brasileiro de telecomunicações por empresas multinacionais pelo preço mais alto do mundo. O faturamento anual dessas empresas no Brasil é de R$ 120 bilhões, 10 vezes o faturamento do sistema de radiodifusão. Tupi or not tupi? 
Marta Rezende

terça-feira, 20 de abril de 2010

FLOW II

"Tempo é criança brincando, jogando; de criança o reinado." 

Heráclito
Ilustração: Portinari. Crianças brincando, 1955. Crianças pulando carniça, 1957.

sexta-feira, 16 de abril de 2010

ENTRAR EM FLUXO

"Enquanto estou ocupado com alguma coisa, penso que estou a fazer a coisa mais linda do mundo. Quando tenho êxito em alguma coisa, então à noite, sento-me em frente dela enamorado. E essa paixão é maior do que qualquer paixão por pessoa. No dia seguinte, os olhos abrem-se de novo. "
Escher (tb. autor da ilustração)

quinta-feira, 15 de abril de 2010

POR QUE FILOSOFIA? PARA CUIDAR DE SI.


"Quando se é jovem, não se pode evitar de filosofar e, quando se é velho, não se deve cansar de filosofar. Nunca é muito cedo ou muito tarde para cuidar de sua alma. Aquele que diz que não é ainda, ou que não é mais tempo de filosofar, parece àquele que diz que não é ainda, ou não é mais tempo de atingir a felicidade. Deve-se, então, filosofar quando se é jovem e quando se é velho, no segundo caso (...) para rejuvenescer ao contato do bem, pelas lembranças dos dias passados, e no primeiro caso (...) afim de ser, ainda que jovem, tão firme quanto um velho diante do futuro." Epicuro (sec. IV AC)

quarta-feira, 14 de abril de 2010

PARADIGMAS CONTEMPORÂNEOS DO CONHECIMENTO CIENTÍFICO

" Se eu quero ir à lua, necessito de conhecimento científico; mas se eu quero preservar a biodiversidade, preciso do conhecimento indígena e camponês. "
    Boaventura de Sousa Santos


As principais alterações epistemológicas que se produziram no movimento científico nos últimos 20 anos segundo Boaventura de Sousa Santos:  

Deslocamento da física para as ciências da vida: " o discurso epistemológico deslocou-se da física para as ciências da vida, sobretudo para a genética, e com isso surgiram novos problemas: a relação entre genética, biologia da evolução e biologia do desenvolvimento; os fenómenos biológicos entre a linguagem físico-química da vida e a linguagem da informação; os problemas éticos da investigação genética à regulação desta; a relação entre a indústria da biotecnologia e a investigação científica; o patenteamento de formas de vida ou de processos ligados à vida."

Valorização do pragmatismo: "estes desenvolvimentos deram origem a novas fracturas entre paradigmas reducionistas e paradigmas da complexidade, das quais emergiram novas questões no seguimento das que eu tinha identificado em Um Discurso: o conhecimento como resultado de processos locais e, portanto, situado e contextualizado; valorização epistemológica do pragmatismo."

Colapso da separação entre ciências naturais e ciências sociais: "a crescente saliência de áreas de conhecimento em que a distinção entre “ciências naturais” e “ciências sociais” colapsa: ciências do ambiente, ciências cognitivas, biodiversidade, ciências da saúde."

Diálogo entre ciência e não-ciência:
"o reconhecimento crescente, sobretudo nas duas últimas áreas que acabei de referir, do carácter parcial do conhecimento científico e da necessidade de procurar diálogos entre ele e conhecimentos não científicos, por vezes, incorrectamente, designados como “etno-saberes”. A esse diálogo venho chamando a ecologia dos saberes. "



Os textos acima, editados aqui, foram extraídos de: "Em torno de um novo paradigma sócio-epistemológico.  Manuel Tavares conversa com Boaventura de Sousa Santos." In: Revista Lusófona de Educação, vol. 10, nº 10, 2007.   Disponível in: http://revistas.ulusofona.pt/index.php/rleducacao/issue/view/67 . Consulta: 14.04.2010
Para saber mais sobre Boaventura de Sousa santos, ver: http://www.boaventuradesousasantos.pt/pages/pt/homepage.php

terça-feira, 13 de abril de 2010

30 ANOS SEM SARTRE, O MESTRE DOS MESTRES

"Tristeza das gerações sem mestres..." 
Homenagem ao mestre que daqui a dois dias completará 30 anos de morte: Jean Paul Sartre (Paris, 21 de Junho de 1905 -  Paris, 15 de Abril de 1980). Nada melhor que as palavras de outro grande mestre. 
___________


ELE FOI MEU MESTRE
Gilles Deleuze 
Tristeza das gerações sem « mestres ». Nossos mestres não são apenas os professores públicos, ainda que tenhamos uma grande necessidade de professores. No momento em que atingimos a idade adulta, nossos mestres são aqueles que nos tocam com uma novidade radical, aqueles que sabem inventar uma técnica artística ou literária e encontrar as maneiras de pensar que correspondem à nossa modernidade, quer dizer, tanto às nossas dificuldades como aos nossos entusiasmos difusos. Sabemos que existe apenas um valor de arte e até mesmo de verdade : a « primeira mão », a novidade autêntica daquilo que se diz, a « musiquinha » com a qual aquilo é dito. Sartre foi isso para nós (para a geração que tinha vinte anos no momento da Liberação). Quem, na época, soube dizer algo de novo além de Sartre ? Quem nos ensinou novas maneiras de pensar ? Por mais brilhante e profunda que tenha sido, a obra de Merleau-Ponty era professoral e dependia daquela de Sartre em muitos aspectos. (Sartre assimilava de bom grado a existência do homem ao não-ser de um “buraco” no mundo : pequenos lagos de nada, dizia. Mas Merleau-Ponty os considerava como dobras, simples dobras e dobramentos. Assim se distinguiam um existencialismo duro e penetrante e um existencialismo mais brando, mais reservado.) E Camus, ai! Ora se tratava de um virtuosismo afetado, ora de uma absurdidade de segunda mão. Camus valia-se de pensadores malditos, mas toda sua filosofia nos conduzia a Lalande e a Meyerson, autores já bem conhecidos dos alunos do terceiro grau. Os novos temas, um certo estilo novo, uma nova maneira polêmica e agressiva de levantar os problemas, tudo isso veio de Sartre. Na desordem e nas esperanças da Liberação, descobria-se, redescobria-se tudo : Kafka, o romance americano, Husserl e Heidegger, os acertos de contas sem fim com o marxismo, o impulso em direção a um novo romance…Tudo passava por Sartre, não apenas porque, sendo um filósofo, possuía um gênio da totalização, mas porque sabia inventar o novo. As primeiras representações de As Moscas, a aparição de O Ser e o nada, a conferência O Existencialismo é um humanismo foram acontecimentos : aprendia-se aí, depois de longas noites, a identidade do pensamento e da liberdade.
Pensador privado 
Os « pensadores privados » opõem-se, de uma certa maneira, aos « professores públicos ». Até mesmo a Sorbonne precisa de uma anti-Sorbonne, e os estudantes só escutam bem seus professores quando têm também outros mestres. Nietzsche, no seu tempo, deixara de ser professor para tornar-se pensador privado : também Sartre o fez, num outro contexto e com uma outra saída. Os pensadores privados têm duas características: uma espécie de solidão que permanece como propriamente sua em qualquer circunstância; mas também uma certa agitação, uma certa desordem do mundo, na qual eles surgem e falam. Além do mais, só falam em seu próprio nome, sem « representar » nada; e solicitam presenças brutas no mundo, potências nuas que de modo algum são « representáveis ». Já em Que é a literatura? Sartre traçava o ideal do escritor : « O escritor retomará o mundo tal e qual, todo nu, todo suado, todo fedido, todo cotidiano, para apresentá-lo às liberdades fundado sobre uma liberdade…Não é suficiente conceder ao escritor a liberdade de dizer tudo ! É preciso que ele escreva a um público que tenha a liberdade de mudar tudo, o que significa – além da supressão das classes – a abolição de toda ditadura, a renovação perpétua dos cargos, a derrubada contínua da ordem – a partir do momento em que ameaça se fixar. Em uma só palavra, a literatura é essencialmente a subjetividade de uma sociedade em revolução permanente”. Desde o início Sartre concebeu o escritor sob a forma de um homem como os outros, dirigindo-se aos outros do ponto de vista único de sua liberdade. Toda sua filosofia se inseria num movimento especulativo que contestava a noção de representação, a própria ordem da representação: a filosofia mudava de lugar, abandonava a esfera do juízo, para se instalar no mundo mais colorido do « pré-judicativo », do « sub-representativo ». Sartre acaba de recusar o prêmio Nobel. Continuação prática da mesma atitude, horror à idéia de representar algo praticamente, ainda que seja dos valores espirituais ou, como ele, diz, de ser institucionalizado.
Esperança revolucionária
O pensador privado precisa de um mundo que comporte um mínimo de desordem, mesmo que seja apenas uma esperança revolucionária, um grão de revolução permanente. Em Sartre, há uma espécie de fixação na Liberação, nas esperanças desiludidas desse momento. Foi preciso a guerra da Argélia para reencontrar algo da luta política ou da agitação liberatória e, então, em condições muito mais complexas, já que não éramos mais os oprimidos mas, precisamente, aqueles que deviam se voltar contra si mesmos. Ah ! juventude. Só resta Cuba e a guerrilha venezuelana. Porém, maior ainda do que a solidão do pensador privado, há a solidão dos que buscam um mestre, dos que gostariam de um mestre e que só poderiam encontrá-lo num mundo agitado. A ordem moral, a ordem « representativa » fechou-se sobre nós. Até o medo atômico tomou ares de um medo burguês. Agora acontece até de propor-se aos jovens Teilhard de Chardin como modelo de pensador. Tem-se o que se merece. Depois de Sartre, não apenas Simone Weil, mas a Simone Weil da imitação. Porém, não é que não existam coisas profundamente novas na literatura atual. Citemos ao acaso : o novo romance, os livros de Gombrowicz, os contos de Klossowski, a sociologia de Lévi-Strauss, o teatro de Genet e de Gatti, a filosofia da « desrazão » que Foucault elabora…Mas o que falta hoje, o que Sartre soube reunir e encarnar para a geração precedente, são as condições de uma totalização: aquela em que a política, o imaginário, a sexualidade, o inconsciente, a vontade se reúnem nos direitos da totalidade humana. Hoje nós subsistimos com os membros esparsos. Sartre dizia de Kafka : sua obra é « uma reação livre e unitária ao mundo judeo-cristão da Europa central ; seus romances são o ultrapassamento sintético de sua situação de homem, de judeu, de tcheco, de noivo relutante, de tuberculoso etc. ».  Mas o próprio Sartre : sua obra é uma reação ao mundo burguês, tal como o comunismo o põe em questão. Ela exprime o ultrapassamento de sua própria situação de intelectual burguês, de ex-aluno da École Normale, de noivo livre, de homem feio (já que Sartre se apresentava freqüentemente assim)… etc. : tudo isso que se reflete e ecoa no movimento de seus livros.
A subjetividade e as exigências coletivas 
Falamos de Sartre como se ele pertencesse a uma época acabada. Mas ai! Nós é que estamos já acabados na ordem moral e no conformismo atual. Pelo menos Sartre nos permite uma vaga espera dos momentos futuros, de retomadas nas quais o pensamento se reformará e refará suas totalidades, como potência ao mesmo tempo coletiva e privada. É por isso que Sartre continua sendo nosso mestre. O último livro de Sartre, A crítica da razão dialética, é um dos livros mais belos e mais importantes surgidos nestes últimos anos. Ele dá a O ser e o nada seu complemento necessário, no sentido em que as exigências coletivas completam a subjetividade da pessoa. E quando pensamos novamente em O ser e o nada é para reencontrar o espanto que tínhamos diante em face dessa renovação da filosofia. Agora já sabemos melhor que as relações de Sartre com Heidegger, sua dependência de Heidegger, eram falsos problemas que se apoiavam em mal-entendidos. O que nos tocava em O ser e o nada era unicamente sartreano e dava a envergadura da contribuição de Sartre : a teoria da má-fé, em que a consciência, no seu interior, brincava com a sua dupla potência de não ser o que é e de ser o que não é; a teoria do Outrem, em que o olhar de outrem bastava para fazer o mundo vacilar e « roubá –lo » de mim ; a teoria da liberdade, em que esta se limitava a si mesma ao se constituir em situações ; a psicanálise existencial, onde se podia reencontrar as escolhas de base de um indivíduo no centro de sua vida concreta. E cada vez, a essência e o exemplo entravam em relações complexas que davam um estilo novo à filosofia. O garçom do café, a moça apaixonada, o homem feio e, principalmente, meu amigo-Pierre-que-nunca-estava-presente, formavam verdadeiros romances na obra filosófica e percutiam as essências ao ritmo de seus exemplos existenciais. Por toda parte brilhava uma sintaxe violenta, feita de rachaduras e de estiramentos, lembrando as duas obsessões sartreanas : os lagos de não-ser, as viscosidades da matéria.
Recusa do Prêmio Nobel
A recusa do prêmio Nobel é uma boa notícia. Finalmente, alguém que não tenta explicar que é um delicioso paradoxo para um escritor, para um pensador privado, aceitar honras e representações públicas. Muitos espertinhos já tentam levar Sartre à contradição : demonstram-lhe sentimentos de despeito, vindo o prêmio tarde demais ; objetam dizendo que, de qualquer maneira, ele representa algo; recordam-lhe que, de todo modo, seu sucesso foi e permanece sendo burguês; deixam entender que sua recusa não é nem sensata nem adulta ; mostram-lhe o exemplo daqueles que aceitaram-recusando, dando pelo menos o dinheiro à caridade. Melhor seria não provocar muito, Sartre é um polemista perigoso…Não há gênio sem paródia de si mesmo. Mas qual é a melhor paródia? Tornar-se um velho adaptado, uma autoridade espiritual coquete? Ou então querer ser o abobado da Liberação? Ver-se acadêmico ou sonhar em ser combatente venezuelano? Quem não vê a diferença de qualidade, a diferença de gênio, a diferença vital entre essas duas escolhas ou essas duas paródias? Ao que Sartre é fiel? Sempre ao amigo Pierre-que-nunca-está-presente. É o destino desse autor trazer ar puro quando ele fala, mesmo que seja difícil respirar esse ar puro, o ar das ausências.

In:  Deleuze, Gilles. L´île déserte et autres textes
A versão publicada acima, sem as notas, é tradução de Francisca Maria Cabrera. Disponível in:   prof.alexsantana.googlepages.com/TextodeGillesDeleuzesobreSartre-para.doc . Consulta em 13.04.2010 . Os intertítulos não fazem parte do texto original.  

Obs.: Esse livro foi publicado no Brasil:  Deleuze, Gilles. A ilha deserta e outros textos - Textos e entrevistas ( 1953-1974 ). Tradução de Luiz B. Orlandi . São Paulo:Iluminuras, 2006.
Fotos: 1) Sartre e Simone de Beauvoir; 2) Gilles Deleuze; 3) Sartre com Foucault ao fundo; 4) Sartre, Simone e Che Guevara; 5) capa do livro Crítica da razão dialética ; 6) Sartre em manifestação em Maio de 1968. 

segunda-feira, 12 de abril de 2010

PARA MUITO ALÉM DO YOUTUBE: UBU

Fantastique! É de tirar o fôlego da gente o tanto de coisa boa que tem neste site de artes http://www.ubu.com/ . 

Quem quiser ir direto pra filmoteca, prepare o seu coração: http://www.ubu.com/film/


UbuWeb is a completely independent resource dedicated to all strains of the avant-garde, ethnopoetics, and outsider arts. All materials on UbuWeb are being made available for noncommercial and educational use only. All rights belong to the author(s). UbuWeb is completely free.

TRANSFORMAR O MUNDO EM CAMPUS GLOBAL. EDUCAÇÃO PERMANENTE PARA TODOS! SOLUÇÕES COLETIVAS!!!

domingo, 11 de abril de 2010

ROMERO TORI: PROFESSOR SEM DISTÂNCIA

O professor Romero Tori acaba de lançar, pela Editora Senac - São Paulo,  o livro EDUCAÇÃO SEM DISTÂNCIA. Não pude ir ao lançamento do livro (as chuvas naquela semana fizeram a minha agenda virar uma bagunça), mas entrei no blog dele http://romerotori.blogspot.com/ e fiz um comentário respondendo à pergunta postada por ele: "O QUE É EDUCAÇÃO?". Reproduzo aqui meu comentário

Prezado professor Romero, parabéns pelo lançamento do livro. Agora ele nos pertence, ao público leitor. Obrigada pela parte que me toca.

Sobre educação, o que venho pensando é que não há um conceito único. Depende de quem conceitua. Para alguns educação significa treinamento. Para outros, significa aprender a se libertar (inclusive dos treinamentos). Para a maioria, infelizmente, educação é recognição (aprender o que já é conhecido. O mesmo!). Para mim, educação, como penso atualmente, é diferenciação, é devir. Ao invés de reconhecer, criar. O mundo não está pronto. Podemos, inventá-lo. E a vida é a grande escola. Na escola da vida, aprender passa também pelo desaprender. Devemos desaprender muitas bobagens que vamos acumulando num saco muito grande, desaprender hábitos que aprisionam a vida, desaprender teorias que não servem para nada, desaprender a ser levianos, desaprender a julgar, desaprender a ser autoritários etc. A lista é longa... O que a gente vai botando no lugar dos vazios deixados pelo desaprender? Na verdade, não há vazios porque ao desaprender, aprendemos, criamos novos valores, novos conhecimentos, novos comportamentos, novas habilidades. Sem querer ser referência, dona da verdade, dou meu testemunho pessoal: descobri recentemente que a educação é uma "máquina de guerra" pela vida. Suas aulas para mim são isso: mais do que os conceitos que vc ensina, que projeta na parede, SUA PRESENÇA É MUITO EDUCADORA, pois estimula o pensamento (coisa rara hoje em dia porque há uma enorme máquina anti-pensamento), estimula a pesquisa (aprender em atividade) e , o mais importante, CRIA AFETOS POSITIVOS. Seu curso (PCS5757, na Poli) está sendo ótimo para mim, pois me proporciona aquilo que o Spinoza aconselha cultivar para aumentar a potência da vida: BONS ENCONTROS E PAIXÕES ALEGRES.

sexta-feira, 2 de abril de 2010

FAZER DO CONHECIMENTO O AFETO MAIS POTENTE

Quando Nietzsche encontrou Spinoza
" Estou inteiramente espantado, inteiramente encantado! Tenho um precursor e que precursor! Eu não conhecia quase nada de Espinosa; que eu agora ansiasse por ele foi uma “ação do instinto”. Não só, que sua tendência geral seja idêntica à minha - fazer do conhecimento o afeto mais potente - em cinco pontos capitais de sua doutrina eu me reencontro, este pensador, o mais fora da norma e o mais solitário, me é o mais próximo justamente nestas coisas: ele nega o livre-arbítrio; os fins; a ordem moral do mundo; o não-egoísmo; o mal ; se certamente também as diferenças são enormes, isso se deve mais à diversidade de época, de cultura, de ciência. In summa: minha solidão, que, como sobre montes muito altos, com freqüência provocou-me falta de ar e fez-me o sangue refluir, é ao menos agora uma dualidão."
Friedrich Nietzsche - trecho do cartão-postal a   Franz Overbeck - Sils-Maria, 30 de julho de 1881
Para saber sobre Nietzsche e Spinoza, ver blogs de Amauri Ferreira: http://amauriferreira.blogspot.com/;  http://amauriferreiracursos.blogspot.com/; http://bibliotecanomade.blogspot.com/

quarta-feira, 31 de março de 2010

AS DUAS MEMÓRIAS DE BERGSON: A AUTOMÁTICA E A PURA

"Estudo uma lição, e para aprendê-la de cor leio-a primeiramente escandindo cada verso; repito-a em seguida um certo número de vezes. A cada nova leitura efetua-se um progresso; as pala­vras ligam-se cada vez melhor; acabam por se organizar juntas. Nesse momento preciso sei minha lição de cor; dizemos que ela tornou-se lembrança, que ela se impri­miu em minha memória.
Examino agora de que modo a lição foi aprendida, e me represento as fases pelas quais passei sucessivamente. Cada uma das leituras sucessivas volta-me então ao espírito com sua individualidade própria; revejo-a com as circunstâncias que a acompanhavam e que a enquadram ainda; ela se distingue das precedentes e das subseqüentes pela própria posição que ocupou no tempo; em suma, cada uma dessas leituras torna a passar diante de mim co­mo um acontecimento determinado de minha história. Dir-se-á ainda que essas imagens são lembranças, que elas se imprimiram em minha memória. Empregam-se as mesmas palavras em ambos os casos. Trata-se efetiva­mente da mesma coisa? "
Henri Bergson - Apud Fagundes in http://claudioalex.multiply.com/journal/item/859/859
Ilustração: Moça com livro - Almeida Júnior

sexta-feira, 26 de março de 2010

APRENDER É COMPREENDER A DIFERENÇA ATRAVÉS DA REPETIÇÃO

" O movimento do nadador não se assemelha ao movimento da onda; e, precisamente, os movimentos do professor de natação, movimentos que reproduzimos na areia, nada são em relação aos movimentos da onda, movimentos que só aprendemos a prever quando os apreendemos praticamente como signos. Eis por que é tão difícil dizer como alguém aprende: há uma familiaridade prática, inata ou adquirida, com os signos, que faz de toda educação alguma coisa amorosa, mas também mortal. Nada aprendemos com aquele que nos diz: faça como eu. Nossos únicos mestres são aqueles que nos dizem "faça comigo" e que, em vez de nos propor gestos a serem reproduzidos, sabem emitir signos a serem desenvolvidos no heterogêneo. Em outros termos, não há ideo-motricidade, mas somente sensório-motricidade. Quando o corpo conjuga seus pontos relevantes com os da onda, ele estabelece o princípio de uma repetição, que não é a do Mesmo, mas que compreende o Outro, que compreende a diferença e que, de uma onda e de um gesto a outro, transporta esta diferença pelo espaço repetitivo assim constituído. Apreender é constituir este espaço do encontro com signos, espaço em que os pontos relevantes se retomam uns nos outros e em que a repetição se forma ao mesmo tempo em que se disfarça. Há sempre imagens de morte na aprendizagem, graças à heterogeneidade que ela desenvolve, aos limites do espaço que ela cria. Perdido no longínquo, o signo é mortal; e também o é quando nos atinge diretamente." Gilles Deleuze. Diferença e repetição.

quarta-feira, 24 de março de 2010

O LIVRO MÓVEL DE DELEUZE E GUATARI

Lembro-me de livros geniais que li e que me fizeram aprender, mas que não são nada estáveis, pois são labirintos intertextuais (Lúcia Leão - A estética dos labirintos). Vou dar alguns exemplos: Alice no país das maravilhas (Lewis Carrol), O jogo da amarelinha (Júlio Cortazar), Castelo dos destinos cruzados (Italo Calvino), Mil Platôs (Deleuze e Guatari), dentre outros. Leão cita toda a obra de contos do Jorge Luis Borges, a obra de Kafka, O nome da rosa (Umberto Eco), a obra da Garcia Lorca etc.


O Kozma fala da estabilidade dos livros como distintiva da TV cuja marca é a transitoriedade. Na aula passada ponderei essa questão citando Deleuze que confere à leitura do livro contemporâneo forte semelhança com a audiência de outras mídias visuais e sonoras conforme ( ver postagem Deleuze e a leitura)

“Partir, evadir-se, traçar uma linha”


Em Mil platôs - capitalismo e esquizofrenia, Deleuze e Guatari vão a fundo na questão e apresentam um conjunto de considerações sobre os livros. Identificam  três categorias deles : o livro-raiz, fundado sobre o modelo de árvore, o livro-radícula e o livro rizoma. Me parece que Kozma, refere-se mais ao livro do primeiro tipo, o livro raiz, o livro clássico tradicional, apoiado numa lógica binária. Kozma pode estar falando também do livro radícula, fasciculado, em que a raiz passa a conviver com feixes de outras raízes, se entrelaçando. É uma multiplicidade agora, mas  presa a uma estrutura central que é a raiz, não rompendo com o dualismo. Já o livro rizomático é muito diferente da árvore ou da raiz. Ao invés de se fixar num ponto, o rizoma é  interconexão e  heterogeneidade de múltiplos pontos. Ao contrário das estruturas arborescentes, nas quais uma quebra pode sucumbir todo o sistema, as estruturas rizomáticas se reestratificam e se reconstroem. Ao invés de decalcoemania, a cartografia, pois o mapa se abre à experimentação, a interconexão de sentidos e a heterogeneidade. Não é reprodução, é construção.

Vale pena dar uma olhada nos trechos abaixo em que procurei destacar algumas passagens passagens sobre os livros no capítulo de Introdução de Mil platôs, vol. 1, que pode ser abaixado na íntegra na Biblioteca Nômade, aqui: http://bibliotecanomade.blogspot.com/2009/08/arquivos-para-download-mil-platos-5.html


1 - DESTINO INCERTO DO LIVRO
 " Com o passar dos anos, os livros envelhecem, ou, ao contrário, recebem uma segunda juventude. Ora eles engordam e incham, oram modificam seus traços, acentuam suas arestas, fazem subir à superfície novos planos. Não cabe aos autores determinar um tal destino objetivo."

2 - LIVRO MÁQUINA
" Um livro não tem objeto nem sujeito; é feito de matérias diferentemente formadas, de datas e velocidades muito diferentes. Desde que se atribui um livro a um sujeito, negligencia-se este trabalho das matérias e a exterioridade de suas correlações. Fabrica-se um bom Deus para movimentos geológicos. Num livro, como em qualquer coisa, há linhas de articulação ou segmentaridade, estratos, territorialidades, mas também linhas de fuga, movimentos de desterritorialização e desestratificação. As velocidades comparadas de escoamento, conforme estas linhas, acarretam fenômenos de retardamento relativo, de viscosidade ou, ao contrário, de precipitação e de ruptura. Tudo isto, as linhas e as velocidades mensuráveis, constitui um agenciamento. Um livro é um tal agenciamento e, como tal, inatribuível. É uma multiplicidade (...) Agenciamento maquínico é direcionado para os estratos que fazem dele, sem dúvida, uma espécie de organismo, ou bem uma totalidade significante, ou bem uma determinação atribuível a um sujeito, mas ele não é menos direcionado para um corpo sem órgãos, que não pára de desfazer o organismo, de fazer passar e circular partículas a-significantes, intensidades puras, e não pára de atribuir-se os sujeitos aos quais não deixa senão um nome como rastro de uma intensidade. Qual é o corpo sem órgãos de um livro? Há vários, segundo a natureza das linhas consideradas, segundo seu teor ou sua densidade própria, segundo sua possibilidade de convergência sobre "um plano de consistência" que lhe assegura a seleção. Aí, como em qualquer lugar, o essencial são as unidades de medida: "quantificar a escrita". Não há diferença entre aquilo de que um livro fala e a maneira como é feito. Um livro tampouco tem objeto. Considerado como agenciamento, ele está somente em conexão com outros agenciamentos, em relação com outros corpos sem órgãos. Não se perguntará nunca o que um livro quer dizer, significado ou significante, não se buscará nada compreender num livro, perguntar-se-á com o que ele funciona, em conexão com o que ele faz ou não passar intensidades, em que multiplicidades ele se introduz e metamorfoseia a sua, com que corpos sem órgãos ele faz convergir o seu. Um livro existe apenas pelo fora e no fora. Assim, sendo o próprio livro uma pequena máquina, que relação, por sua vez mensurável, esta máquina literária entretém com uma máquina de guerra, uma máquina de amor, uma máquina revolucionária etc. — e com uma máquina abstrata que as arrasta. Fomos criticados por invocar muito freqüentemente literatos. Mas a única questão, quando se escreve, é saber com que outra máquina a máquina literária pode estar ligada, e deve ser ligada, para funcionar. Kleist e uma louca máquina de guerra, Kafka e uma máquina burocrática inaudita...(e se nos tornássemos animal ou vegetal literatura, o que não quer certamente dizer literariamente? Não seria primeiramente pela voz que alguém se torna animal?) ."

3 - A INFERIORIDADE ORGÂNICA DO LIVRO RAIZ
" Um primeiro tipo de livro é o livro-raiz. A árvore já é a imagem do mundo, ou a raiz é a imagem da árvore-mundo. É o livro clássico, como bela inferioridade orgânica, significante e subjetiva (os estratos do livro). O livro imita o mundo, como a arte, a natureza: por procedimentos que lhes são próprios e que realizam o que a natureza não pode ou não pode mais fazer. A lei do livro é a da reflexão, o Uno que se torna dois. Como é que a lei do livro estaria na natureza, posto que ela preside a própria divisão entre mundo e livro, natureza e arte? Um torna-se dois: cada vez que encontramos esta fórmula, mesmo que enunciada estrategicamente por Mao Tsé-Tung, mesmo compreendida o mais "dialeticamente" possível, encontramo-nos diante do pensamento mais clássico e o mais refletido, o mais velho, o mais cansado. A natureza não age assim: as próprias raízes são pivotantes com ramificação mais numerosa, lateral e circular, não dicotômica. O espírito é mais lento que a natureza. Até mesmo o livro como realidade natural é pivotante, com seu eixo e as folhas ao redor. Mas o livro como realidade espiritual, a Árvore ou a Raiz como imagem, não pára de desenvolver a lei do Uno que se torna dois, depois dois que se tornam quatro.... A lógica binária é a realidade espiritual da árvore-raiz. Até uma disciplina "avançada" como a Lingüística retém como imagem de base esta árvore-raiz, que a liga à reflexão clássica (assim Chomsky e a árvore sintagmática, começando num ponto S para proceder por dicotomia). Isto quer dizer que este pensamento nunca compreendeu a multiplicidade: ele necessita de uma forte unidade principal, unidade que é suposta para chegar a duas, segundo um método espiritual. E do lado do objeto, segundo o método natural, pode-se sem dúvida passar diretamente do Uno a três, quatro ou cinco, mas sempre com a condição de dispor de uma forte unidade principal, a do pivô, que suporta as raízes secundárias. Isto não melhora nada. As relações biunívocas entre círculos sucessivos apenas substituíram a lógica binária da dicotomia. A raiz pivotante não compreende a multiplicidade mais do que o conseguido pela raiz dicotômica. Uma opera no objeto, enquanto a outra opera no sujeito. A lógica binária e as relações biunívocas dominam ainda a psicanálise (a árvore do delírio na interpretação freudiana de Schreber), a lingüística e o estruturalismo, e até a informática.

4 - LIVRO RADÍCULA OU FASCICULADO: O QUE MAIS PROSPEROU NA MODERNIDADE
O sistema-radícula , ou raiz fasciculada, é a segunda figura do livro, da qual nossa modernidade se vale de bom grado. Desta vez a raiz principal abortou, ou se destruiu em sua extremidade: vem se enxertar nela uma multiplicidade imediata e qualquer de raízes secundárias que deflagram um grande desenvolvimento. Desta vez, a realidade natural aparece no aborto da raiz principal, mas sua unidade subsiste ainda como passada ou por vir, como possível. Deve-se perguntar se a realidade espiritual e refletida não compensa este estado de coisas, manifestando, por sua vez, a exigência de "ma unidade secreta ainda mais compreensiva, ou de uma totalidade mais extensiva. Seja o método do cut-up de Burroughs: a dobragem de um texto sobre outro, constitutiva de raízes múltiplas e mesmo adventícias (dir-se-ia uma estaca), implica uma dimensão suplementar à dos textos considerados. É nesta dimensão suplementar da dobragem que a unidade continua seu trabalho espiritual. É neste sentido que a obra mais deliberadamente parcelar pode também ser apresentada como Obra total ou o Grande Opus. A maior parte dos métodos modernos para fazer proliferar séries ou para fazer crescer uma multiplicidade valem perfeitamente numa direção, por exemplo, linear, enquanto que uma unidade de totalização se afirma tanto mais numa outra dimensão, a de um círculo ou de um ciclo. Toda vez que uma multiplicidade se encontra presa numa estrutura, seu crescimento é compensado por uma redução das leis de combinação. Os abortadores da unidade são aqui fazedores de anjos, doctores angelici, posto que eles afirmam uma unidade propriamente angélica e superior. As palavras de Joyce, justamente ditas "com raízes múltiplas", somente quebram efetivamente a unidade da palavra, ou mesmo da língua, à medida que põem uma unidade cíclica da frase, do texto ou do saber. Os aforismos de Nietzsche somente quebram a unidade linear do saber à medida que remetem à unidade cíclica do eterno retorno, presente como um não sabido no pensamento. Vale dizer que o sistema fasciculado não rompe verdadeiramente com o dualismo, com a complementaridade de um sujeito e de um objeto, de uma realidade natural e de uma realidade espiritual: a unidade não pára de ser contrariada e impedida no objeto, enquanto que um novo tipo de unidade triunfa no sujeito. O mundo perdeu seu pivô, o sujeito não pode nem mesmo mais fazer dicotomia, mas acede a uma mais alta unidade, de ambivalência ou de sobredeterminação, numa dimensão sempre suplementar àquela de seu objeto. O mundo tornou-se caos, mas o livro permanece sendo imagem do mundo (...). "

5 - A MEMÓRIA RIZOMÁTICA
"Os neurólogos, os psicofisiólogos, distinguem uma memória longa e uma memória curta (da ordem de um minuto). Ora, a diferença não é somente quantitativa: a memória curta é de tipo rizoma, diagrama, enquanto que a longa é arborescente e centralizada (impressão, engrama, decalque ou foto). A memória curta não é de forma alguma submetida a uma lei de contigüidade ou de imediatidade em relação a seu objeto; ela pode acontecer à distância, vir ou voltar muito tempo depois, mas sempre em condições de descontinuidade, de ruptura e de multiplicidade. Além disto, as duas memórias não se distinguem como dois modos temporais de apreensão da mesma coisa; não é a mesma coisa, não é a mesma recordação, não é também a mesma idéia que elas apreendem. Esplendor de um Idéia curta: escreve-se com a memória curta, logo, com idéias curtas, mesmo que se leia e releia com a longa memória dos longos conceitos. A memória curta compreende o esquecimento como processo; ela não se confunde com o instante, mas com o rizoma coletivo, temporal e nervoso. A memória longa (família, raça, sociedade ou civilização) decalca e traduz, mas o que ela traduz continua a agir nela, à distância, a contratempo, intempestivamente, não instantaneamente. "

6  - O LIVRO RIZOMA: PERCEBER PELO MEIO
"O livro, agenciamento com o fora contra o livro-imagem do mundo. Um livro rizoma, e não mais dicotômico, pivotante ou fasciculado. Nunca fazer raiz, nem plantar, se bem que seja difícil não recair nos velhos procedimentos. "As coisas que me vêm ao espírito se apresentam não por sua raiz, mas por um ponto qualquer situado em seu meio. Tentem então retê-las, tentem então reter um pedaço de erva que começa a crescer somente no meio da haste e manter-se ao lado" Por que é tão difícil? É desde logo uma questão de semiótica perceptiva. Não é fácil perceber as coisas pelo meio, e não de cima para baixo, da esquerda para a direita ou inversamente: tentem e verão que tudo muda. Não é fácil ver a erva nas coisas e nas palavras (Nietzsche dizia da mesma maneira que um aforismo devia ser "ruminado", e jamais um platô é separável das vacas que o povoam e que são também as nuvens do céu)."